Just like Every other Day
O dia-a-dia menos extraordinário.Arquivo para Agosto 13, 2007
Pra começar
Após dizer “Olá mundo!”, gostaria de começar.
Um fim de semana extremamente calmo. A caminho do meu sítio, começando na sexta-feira a noite, somente eu e minha namorada. Já no sábado, minha família se juntou a nós em uma rodada de pizza para comemorar o aniversário da minha mãe e o iminente Dia dos Pais. Domingo, um leve churrasco no almoço. Após o churrasco, carregamos os carros e fomos embora. Sai com meus dois irmãos antes de meus pais, pois eles gostam de certificar que a casa do sítio está bem fechada. Tudo de acordo com o planejado, meu carro estava recém-revisado, a estrada estava com o movimento baixo, tudo ótimo.
Em certo momento, faltando alguns kilômetros para chegarmos, uma Ecosport vermelha se aproximou do meu carro por trás de forma estranha. Comentei na hora: “Esse cara não está bem”. Após algumas freadas falsas minhas (somente de leve com o pé esquerdo) ele manteve uma distância maior. Continuei observando tudo pelo espelho. Então, em um ponto de difícil ultrapassagem, a Ecosport se atirou na pista oposta, sem levar os riscos em consideração. O que aconteceu a seguir foi assustador. Eu pude assistir, praticamente em camêra lenta, o choque frontal da Ecosport com um Uno Mille.
O barulho é sempre o pior, mas não desta vez. Por ter notado a postura do motorista da Ecosport, eu já esperava alguma imprudência, mas nada tão grave. Encostei o carro e desci desesperado, contrariando minha irmã, que gritava para que eu ficasse no carro. Sinalizando com uma mão para que os carros parassem e discando 193 com a outra, corri para perto do Uno, enquanto uma senhora gritava da EcoSport “Socorro, me tirem daqui!”. O cara que estava na minha frente na estrada e já havia parado correu ajudá-la, quando eu acho que eu deveria ter ido. Ao chegar no Uno, vi dois ocupantes. O passageiro, com a coluna vertebral visivelmente quebrada e sem pulso (não sou nenhum médico, mas não é muito difícil achar pulso no pescoço) e o motorista respirando muito fracamente e com ambos os olhos virados.
Entrei em um estado de semi-pânico. Não saia da minha cabeça: “Esse poderia ser você”. Porém, o resgate daquelas pessoas dependia de mim e de outros que presenciaram a batida. Liguei mais uma vez para os bombeiros. Eles me disseram que já estavam a caminho. Liguei para a polícia, para que organizasse o trânsito, pois dois véiculos no meio da estrada estavam fazendo um circo para os curiosos que passavam muito devagar.
Quando olho de novo, após ter dito aos bombeiros que os dois integrantes do Uno haviam morrido, o motorista pisca os olhos. Em um ato de total desespero, ele começa a se debater para sair. Eu tentei conversar com ele, porém, ele parecia distante da situação. Repetia várias vezes para ele, no tom mais sereno que conseguia: “Fica calmo, cara. Fica paradinho aí. Aconteceu um acidente e você precisa ficar calmo.” Os olhos dele pareciam sem foco. Ele olhava para qualquer lugar. Sem direção. Sem brilho. Como se tivesse de fato morrido.
Ligo mais uma vez para os bombeiros. Disse: “Onde vocês estão? Houve um acidente envolvendo sete pessoas, três dessas vítimas fatais.” Perdi a noção do tempo após essa frase. Simplesmente ajudei a retirar o motorista do Uno Mille do carro (contra minha vontade), já que ele não parava de se debater.
Minutos depois a polícia chegou. Me aproximei e disse que eu havia ligado. Eles confirmaram meu nome. Segundos depois o Resgate chegou. Chamei o motorista e avisei que eu havia ligado. Confirmaram meu nome. Quase 6 horas depois, o barulho de uma freada muito forte, a visão de uma batida horrível, o cheiro de gasolina na pista toda e a cor do sangue em quase todos os rostos me mantém acordado com uma necessidade urgente de colocar isso para fora.
Km 111, Rodovia Jõao Leme dos Santos (SP-264), em um horário que não lembro e uma cena que não vou esquecer.